A fala


Wanderlei Silva

o guerreiro no período de 2007 -2011

 

 

 


 

 

 

 




Escrito por Tierro às 01h29
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Dorothea Barth

david josé tierro




o socorro

era a última

e o relógio, lá no parque municipal

de Lion, ressoava

ecoando na noite fria da frança

naqueles dias em que estive ali, de passagem,

e perdi o horário do trem

mesmo que em minas gerais o mineiro não perca o trem,

fora de minas eu perco o trem,

e fiquei ali na noite fria, andando no saguão da estação

e tinha tão poucas pessoas

e então e vi Dorothea

alta e magra

muito magra

e branca

firme corpo de metal

e eu rezei no meu íntimo

e fiquei algumas horas

na noite fria da estação de trem

e eu tinha que ter me ajudado

e resolvi caminhar um pouco

antes da meia noite

quando um trem sairia dali pra Dijon

Dorothea

veio e me perguntou

num péssimo frances

se eu também iria no trem pra dijon

e eu disse que sim

que ele partiria a meia noite

e ela então sorriu e agradeceu

e então

vi que ela estava sozinha

e tinha uma pequena mochila

e segurava um livro

com título em alemão

e a convidei para tomar um café

e disse pra ela

que era uma gentileza

para esperarmos mais aquecidamente o trem,

e ela disse sim

sem pensar muito

suavemente, rindo

e caminahndo

eu fiz uma pergunta,

e outra

numa pergunta

se ela conhecia as modelos brasileiras

e ela nem sorriu e disse que não,

pois desfilava mais em países nórdicos

e então me lembro de ter bebido algumas doses de run

e então eu e Dorothea fomos a um bar com música

algumas quadras da estação de Lion

e começamos a dançar

nos apegamos um ao outro

meio aquela expressão de sorte

de ter um tempo de espera

e uma boa companhia

e rolou um súbito apaixonamento

e começamos a nos beijar

e fomos nos beijando

e ela é uma mulher muito alta

e muito suave

e alegre

e rimos pois meu inglês era muito ruin

e nos entendemos mesmo

ela constantemente ajeitava os cabelos, loiros, amarelos

grandes

perfumados

quando começamos a falar em espanhol

e então foi divertido

porque nos entendemos muito bem

e perdemos o trêm,

de tanto conversar e rir

falei do Brasil

ela falou da Inglaterra,

falei de Cuba,

ela falou do Paquistão

ficamos a manhã juntos, e nos beijamos

e ela pegou o trem dela e eu também

e fomos pra Dijon juntos

umas 10 horas, já estavamos cansados e querendo dormir,

e vi o desfile dela lá,

em Dijon, no dia seguinte

e então perdi o contato,

das mãos grandes, brancas e delgadas

naquela massa de gente


 

 



Escrito por Tierro às 15h39
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iminência de um milagre

david josé




a iminência de um milagre, a espécie humana espera
que algum dia o ideal ético humano
desenvolvido pelas primeiras comunidades humanas
despojadas em 90% de suas potencialidades
pelo criador
mediante a ferocidade do ser humano
tanto de homens
quanto de mulheres
crianças
idosos
todos muito ferozes e violentos
logo no início de sua formação
como espécie


entretanto o ethos
foi uma invenção antiga
e eficiente
que coordenou, afinal de contas
a evolução intelectual do ser humano


a população humana aumentou
por causa do controle sobre o trabalho
o controle de mãos sobre mãos
as mãos que oprimem as mãos que trabalham
sempre é assim:
há mãos que
oprimem as mãos que trabalham

na ditadura de 1964 - 1985
foi o que aconteceu
mãos oprimindo
mãos trabalhando
mãos roubando o estado brasileiro

e ainda é assim
mãos assinando decretos
mãos trocando fraudas
mãos cobrindo os ouvidos para não escutar
mãos tapando os olhos para não estudar
não é mesmo?
o que as mãos de estudantes de pedagogia estão preparadas para fazer?
o que elas estão se preparando para realizar?
riqueza social?
capital cultural?

antropologia
antropo
sapiens
mano
(mano chau)
(mano brown)


por que inventamos a música?
alguém responde?
porque o ser humano inventou a música?
foi Abel
filho de Adão
quem inventou a música
na África
a 300 mil anos atrás
e seu irmão, Cain Velazques
o matou por ciumes
pois Abel inventou a música
para agradecer ao criador da vida

simplesmente então
a questão da necessidade de educação
foi resolvida com a criação de comunidades
de mútua aceitação
que significa saúde e educação igual
a todas as crianças
nem mesmo cmoo aqui
que tem educação particular
e educação pública
o PT do Lula e Dilma
não imitou os melhores exemplos de Cuba
a educação estatal para todas as crianças e jovens

no Brasil, Educação sempre foi negócio para os Portugueses, Espanhois
dos donos das igreijas
a hora da morte é hora difícil
as vezes a criança nasce morta
as vezes nem nasce
e para que ensinar em esquemas?
são difíceis
são os ismos?

(ei, nem todos os "ismos" são doenças!
dependem da área que se fala,
na psicologia pode ser que um sufixo ismo represente
o doentio, patológico
mas na filosofia
o ismo não é sinônimo de doença, ou coisas ruins
como exemplo positivismo, idealismo
marxismo, homossexualismo, bissexualismo, comunismo
antropologismos, surrealismo, ...

entre outras coisas,
a greve
o que veio a tona?
o que estava no fundo?

ler e aprender
se não ler e estudar
não vai entender

amém?



Escrito por Tierro às 23h35
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O gênio genial

David José

 

 

 

era um gênio da lâmpada

como todo e qualquer gênio da lâmpada

aflito para romper a maldição de permanescer escondido em uma garrafa

até que alguém o livrasse, ou mesmo

depois de conceder muitos desejos

e então

aquele gênio

teve uma idéia

depois de mil anos concedendo desejos

e a idéia foi:

roubar os desejos das pessoas

e começou dessa maneira

alguém o achava

e ele dizia:

quais são seus três desejos?

e a pessoa falava

então esse gênio

simplesmente

sem dar satisfações

voltava para dentro da garrafa

e ficava filosofando sobre os desejos daquela pessoa

a pessoa do lado de fora da garrafa

que tinha falado o desejo

esquecia imediatamente o que tinha desejado

e nunca mais pensava naquilo

e o gênio fez assim

por muitos anos

e depois de meditar e roubar desejos

de milhares de pessoas

ele passou a entender melhor

que o ser humano teme

principalmente a solidão

 

 



Escrito por Tierro às 14h55
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Segundo ato

 

 

 

 

Ingride: você quer alguma coisa comigo? Alguma coisa importante, ou mesmo temporalmente estável? Longa? Curta? Que tipo de relacionamento?

 

Valdez: eu cheguei à conclusão que realmente ninguém percebe que o estado brasiliano está sendo gerido por inescrupulosos comerciantes portugueses, chineses, libaneses, japoneses, escoceses, ingleses, franceses, noruegueses. Uma população humana sugando trabalho d e outra população humana. Desde sempre, irmã.

 

Ingride: mas estamos tão distantes do Brasil, o Brasil nem existe mais, é um lugar a vinte horas de avião, um lugar onde não se chega a nenhuma autoridade, nem à autoridade dos pais, nem a autoridade de escolas, ou de nada, e nem em nenhum relacionamento com ecos, com ecos divertidos, e palavras que fogem, irmão. (a mulher se assenta na cama, segura a testa com as mãos, e olha para o noivo), então, irmão?!, como desembolar esse nosso assunto?

 

Valdez: eu, estou filtrando tudo, filtrando os acontecimentos, os fatos, os resultados, as conseqüências, as regularidades, as esperanças, os sonhos, as fantasias, o que surge na frente de nossos pensamentos de casal brasiliano, de tudo o mais, de minhas dívidas inclusivis!

 

Ingride: situação do estado brasileiro!?

 

Valdez: inclusivis a situação do estado brasileiro e da sociedade brasiliana.

 

Juan: eu desejo bom dia a vocês, bom dia. (diz o homem entrando no quarto e se assentando na cama)

 

Valdez: bom dia Juan, que piensas de meu casamento com a Ingridde?

 

Juan: desde que eu continue transando com ela, tudo bem, ...

 

Valdez: (sorri)

 

Ingride: (rindo) claro que não!

 

Ingride: nem bem chegamos ao centro de nossos problemas existenciais, mas eu desejo me transformar em mãe, entende, em mãe do provo brasiliano, em mão de um filho, nascido no Brasil.

 

Valdez: Mas estamos na indonésia! Você está querendo voltar para o Brasil?

 

Juan: eu também quero voltar pro cerrado

 

Valdez: o cerrado não existe. Nada mais existe lá. Cidades muito populosas e cheias de destruição ambiental, sacal, mental, organizacional, destruição das tradições e sonhos, ideais, perspectivas humanistas, biodiversidade, comida boa, acredita que a comida boa do Brasil acabou? Acabou gente (diz o homem se voltando para os dois sujeitos)

 

Juan: malditos filhos da puta (o homem sorri), mesmo tomando cuidado pra não ofender ninguém, não tem como descrever aqueles homens e aquelas mulheres de outra forma.

 

Valdez: e vocês dois querem voltar para o Brasil? Uma piada. Aqui nessa indonésia, tem o capitalismo louco e feroz, mas ao menos o que eles estão destruindo não é a natureza do Brasil. Não precisamos sofrer com isso, como sofríamos lá, a cada imagem das devastações na Amazônia, no cerrado, na mata atlântica, nas praças dos bairros de Belo Horizonte, nas esquinas do bairro buritis, em toda minas gerais, no rio são Francisco, rio das velhas, rio grande, Jequitinhonha, arrudas, rio doce, coisas horríveis

 

Juan: eu estava me viciando em videogame no Brasil, não saia mais de casa. A poluição nas ruas era tremenda, o ar (o homem ria ao falar isso)

 

Ingride: muitas pessoas continuam morrendo no Brasil pra defender a vida, para defender seres vivos, defender animais, defender um projeto de sociedade. Mas eu quero voltar...

 

Valdez: as pessoas estão hipnotizadas lá Ingride! A televisão, a rádio, os jornais, a internet, pelo celular, pelos caixas eletrônicos, pela grande mente internacional multicorporificada, purificada, desencantada, ..., e tudo isso...

 

Jean:  um grupo de teatro brasiliano nós somos, e viemos dançar e atuar na Indonésia, num sistema de polirrelacionamentos transversais, mais do que caixa eletrônico, ou defender os animais.

 

Genilson: (o palco se abre no banheiro. Três homens estão assentados no piso do banheiro, fumando uma maconha, e bebendo vinho) porque é que estamos aqui mesmo?

 

Washington: Para aproveitar a fumaça, ora, e para que os vizinhos não fiquem putos da vida, esses talibões!

 

Alexandre: o pior de estar aqui, sabe, longe de casa, bem longe do Mineirão, e dos jogos do cruzeiro esporte clube, sem saber notícias de futebol. Vocês já viram como é  a televisão aqui? É um conjunto de coisas complexas, recheados de filmes americanos dublados no idioma local. Tem até o chaves, cara, o chaves na indonésia;

 

Washington: é, mas a maconha é permitida, aqui eles não estão nem ai para os maconheiros.

 

Alexandre: é

 

Genilson: eu me sinto um exilado do Brasil, um dia vamos voltar. (os três homens ficam fumando maconha lá no banheiro. A porta do apartamento está fechada. A luz acesa que chega ao corredor, o banheiro com os três homens e o quarto com três pessoas na cama); Valdez se levanta da cama, caminha pela copa da casa e bate na porta do banheiro:

 

Valdez: abram a porta!

 

Genilson: não podemos

 

Valdez: anda logo gente, quero mijar

 

Washington: não podemos irmão

 

Alexandre: a fumaça vai sair

 

Juan: vou mijar (se levanta e vai até o banheiro, fica apoiado em Valdez, escutando a conversa. A mulher fica sentada na mesma posição e deixa o rosto ser esfregado pelas mãos)

 

Juan: vamos entrar (a porta se abre, e os dois entram. Se assentam, e a porta é fechada. Enquanto isso o cigarro vai passando de mão em mão)

 

Juan: vamos voltar para o Brasil?

 

Alexandre: eu proponho que nos mudemos para a Jamáica ou Holanda, acho que podemos tentar uma carreira de músicos e mambembes, podemos fazer o quadro dos palhaços mudos, e levantar alguma grana para uns meses

 

Valdez: gente, mas a questão nacional do Brasil é fundamental que a gent e perticipe, essa disputa pela natureza, eu penso que isso é fundamental...

 

Washington: a Amazônia tem apenas 10% da área coberta de floresta em comparação com o que era há quinhentos anos

 

Alexandre: o rio arrudas, no século XX possuía muitos peixes, irmão

 

Genilson: é, cabuloso, havia muitos peixes no ribeirão arrudas, e a água era pura e cristalina

 

Valdez: mas o ser humano é um bicho tóxico, gente

 

Juan: mas vocês querem ou não querem voltar pro Brasil

 

Valdez: voltar quer dizer gastar todas as nossas economias em passagens daqui da Indonésia até o Brasil

 

Genilson: cara, tinham peixes de todas as cores no rio arrudas, e outros animais também, era sensacional, cabuloso

 

Alexandre: eu não quero voltar. Aqui a maconha é legalizada. E eu tou pensando em fazer uma faculdade por aqui mesmo, aprender o idioma, ou isso, ou aquilo, engravidar uma bela indonésia e viajar pelo mundo

 

Washington: isso é muito tempo, irmão

 

Valdez: precisamos de uma decisão coletiva, gente

 

Juan: nosso dinheiro é coletivo

 

Washington: 10% da Amazônia só? Só sobrou isso? Porra!?!

 

Alexandre: cabuloso, irmão

 

Juan: infelizmente é o único país que temos

 

Genilson: é o único país que temos...

 

 

Genilson: mas aquele lugar, esse país, esse único país que temos, já está todo esculhambado, completametne destruído pela ganância, irmão

 

Valdez: especulação imobiliária, tributária, orçamentária, todas as legislações, leis quase que diárias, todos os dias as pessoas criam leis dentro das câmaras e assembléias legislativa do Brasil

 

Juan: tem que estar claro que voltar pro Brasil é voltar pra poluição e corrupção do estado

 

Ingride: (se levanta da cama, e vai até o banheiro. bate na porta, eles abrem pra ela, ela entra e se assenta num canto do banheiro, vendo os homens fumando.)

 

Ingride: eu quero voltar pro Brasil

 

Mondrongo: (entra na casa um monstro. Com uma enorme cabeça, com chifres. Vai até o quarto, não vê ninguém. Procura embaixo da cama, e não vendo ninguém, dá de ombros e segue para o banheiro. Bate na porta do banheiro, três batidas bem sonoras)

 

Mondrongo: olá! eu sou um monstro metafísico do mal, ... e vim trazer desgraças e ruínas para a vida de vocês. Vocês podem me deixar entrar?

 

Ingride: ai meu deus! Nossenhora!

 

 



Escrito por Tierro às 15h54
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Metodologia de Pesquisa em antropologia da Educação

As possibilidades de domínios de validade alternativos para a análise do fenômeno da relação entre os jogos digitais, a vida familiar e a trajetória escolar dos indivíduos

 

 

 

1.       Uma visão antropológica sobre a pedagogia do vídeogame

 

Duas posições iniciais são possíveis de serem sustentadas para apresentar justificativas da ausência do pedagogo no debate público ocorrido no curso de pedagogia, onde monografia sobre a importância de outros domínios de validade, como os desenvolvidos no universo dos videogames não consegue sustentação, nem orientação correta, deixando de ser refletida de maneira acadêmica com os estudantes, particularmente nas disciplinas de história da educação e filosofia. A abordagem da experiência de jogos digitais poderia lanças luzes sobre a vida escolar e vida familiar, e sobre o entrelaçamento destas duas, como grupo focal, inclusive. Entretanto tal reflexão não encontra acolhimento atualmente, e argumentos precisam ser apresentados, principalmente na historia da educação por ser a disciplina que acompanha criticamente o desenvolvimento material dos métodos e técnicas de ensino, assim como das instituições educadoras; e na filosofia porque o jogo de videogame realmente tem a finalidade de educar o jogador, pois usa programas de computador, inteligência artificial-interativa para manipular a cognição do sujeito que se põe e se propõem a competir com as máquinas digitais. Também poderíamos citar o fato de que a vida eletronicodigital é uma realidade mística e complexa, de alguma forma associada à racionalidade matemática. Essa racionalidade matemática que tem por objetivo na escola a formação dos conhecimentos físico-químicos para a leitura da vida, na formação lógica das operações matemáticas, para o mundo do consumo e da produção, para a observação ad temporalidade, das medidas, do equilíbrio técnico. Abandonando essa perspectiva inicial, de que o problema dos novos formatos de trajetórias pessoais de vida dentro das sociedades complexas não é nem histórico nem filosófico, pensemos duas posições iniciais, dois argumentos introdutórios, que não foram ainda compreendidos pelos estudantes de pedagogia, professores em formação. O que pretendo é apresentar uma impossibilidade teórica para a livre associação entre a vida familiar e o sucesso da trajetória de estudantes da rede pública de ensino, sem que o mundo simbólico dos videogames seja uma referência. Sim, uma referência, a narrativa do jogo, a idéia que o jogador de videogame tem sua vida modificada de forma a interferir na vida familiar e na vida escolar, assumindo um papel determinante na trajetória escolar, de modo a constituir fenômeno observável pelo pedagogo, principalmente a partir da dita visão antropológica.

 

A primeira posição é a de que a própria metodologia de pesquisa, que é o título desta carta, precisa ser reapresentada ao famoso texto de Thomas Kuhn, em suas palavras a respeito dos períodos de calmaria dentro da ciência, onde relações teóricas como a que se pretende tradicionalmente fazer, e se costuma fazer em salas de aula do curso de pedagogia, onde em interessantes debates sobre a possibilidade ou não de se pesquisar o sucesso da trajetória de estudantes, falta clareza aos professores. O estudo dos métodos e técnicas de pesquisa em educação tem por finalidade ser um contínuo na vida do professor, que quando é formado em um curso de pedagogia tem a pesquisa como parte de sua tarefa de educar, um esforço permanente, dadas as potenciais transformações que o espaço, principalmente o escolar sofre, o que demanda contínuas reflexões a partir da realidade, o que é a tarefa da pesquisa. E pesquisar é uma atitude de abertura do sujeito pesquisador, que se pretende apenas sustentar um ponto de vista estabelecido no início de sua investigação deixará de ver a riqueza dos detalhes que se colocarão diante de seus olhos. Abrindo o parágrafo sobre a prioridade dos paradigmas, ou seja as práticas da construção do conhecimento acadêmico, onde as regras da produção de conhecimento, ou ciência normal elegem as idéias mais importantes de serem seguidas na construção deste conhecimento, nos disse Thomas Kuhn:

 

Na ausência de um corpo adequado de regras, o que limita o cientista a uma tradição específica de ciência normal? (...) que precisamos saber, perguntava Wittgenstein, para utilizar termos como “cadeira”, “folha” ou “jogo” de uma maneira inequívoca e sem provocar discussões? (1)

 

 

Que estágio se encontra a metodologia de pesquisa na formação dos professores com relação à cultura complexa do mundo digital? Tanto na busca por uma razão simples para a existência das palavras, quaisquer palavras, como para a determinação radical de que certas palavras se referem a certos objetos, de uma maneira correspondente, que inclusive possa ser pesquisada por uma ciência e contribuir para a formação mental de um indivíduo e seu aprendizado das regras sociais de sobrevivência, ou mesmo interpretar o sentido do sucesso de uma trajetória de vida. Wittgenstein estabelece o aprendizado como um jogo, um jogo de linguagem, onde o valor emocional associado às palavras é um fator de aprendizado, como críticas públicas entre professores e pedagogos em debates acadêmicos. O que faz surgir uma discussão acadêmica também pode ser a falta, ou a raiva, ou o medo, ou mesmo a tristeza. Mas o conhecimento é um salto humano sobre um vazio, olhar para o que ainda não enxergamos.

 

Uma segunda posição é a euforia da era tecnológica, que faz com que o fenômeno das mídias seja exageradamente chamado para justificar estudos sobre as novas tecnologias, como videogames, estudos sobre os efeitos da violência dos jogos digitais na mente e no subconsciente do indivíduo, assim como estudos sobre o consumo de mídia tecnológica e a gigantesca indústria mundial de jogos dos países industrializados como o caso do Brasil. A euforia de imaginar que os jogos digitais tenham provocado alguma revolução (científica?), como poderia até conceber o Thomas Kuhn se jogasse partidas de Perfect World (2011), Bully (2006) e The way of samurai (2002), jogos construídos com inteligentes recursos matemáticos e eletrônicos. Um dos grandes entusiastas da tecnologia como explicação para todas as questões humanas do século XXI é o autor Michael Lewis, que descreve a revolução que a internet provocou nas economias mundiais e de como essa reação em cadeia chegou à cultura, transformando a vida digital, ou o saber viver digitalmente em uma verdadeira riqueza, de modo que, ampliando a perspectiva das novas gerações frente às atuais no sentido de uma adequação, do sucesso pessoal, do sucesso da trajetória de vida pessoal dentro das sociedades informatizadas, industriais. Algumas frases axiomáticas, verdadeiros poemas visuais podemos retirar do texto das justificativas antropológicas para que a vida digital seja entendida como um valor contemporâneo. Uma dessas afirmações, a que descreve o sujeito da era digital pode nos iluminar:

 

A nova novidade é uma idéia que está pronta a ser levada a sério pelo mercado. É a idéia que precisa apenas de um pequeno empurrão para cair na aceitação geral e que, depois do empurrão, vai mudar o mundo. Quem busca novas novidades não se enquadra em nenhuma concepção estabelecida de como as pessoas devem ganhar a vida. Ela tateia no escuro. Encontrar a Nova novidade não depende só de senso de oportunidade ou de preparo técnico ou financeiro, mas essas qualidades ajudam. A busca é acompanhada daquela doce e dolorida sensação que experimentamos quando não conseguimos nos lembrar de um apalavra que parece estar na ponta da língua. Para a maioria das pessoas, lembrar-se da palavra traz um alívio quase físico; elas se recostam na cadeira E tentam fugir de outras palavras difíceis. Mas a pessoa que ganha a vida buscando novas novidades não é como a maioria das pessoas. Há gente que acha que encontrar a nova novidade é quase um dever. Pode ser que esse tipo de gente não seja de fato típico de nossa época (existe alguém que seja?). Mas nesse caso é representativo: uma força subversiva.” (2)

 

 

Não só se referindo às pessoas que desenvolveram os processadores eletrônico-digitais e toda a estrutura linguístico-matemática que permitiu a digilógica, de alguma forma os jogadores de videogames também estão envolvidos pelo espírito fundante da nova tecnologia humana, a nova novidade, de forma que há sempre o novo a ser esperado, há sempre a evolução tecnológica aguardada, o que faz com que na trajetória de vida de um jogador de videogame várias plataformas tecnológicas e infinidade de jogos sejam consumidos regularmente, com as inovações acrescidas e superações estéticas constantemente realizadas. A busca por novidades, acontecimento no campo digital, é diferente da busca escolar?

 

Sendo científicos, devemos portanto pensar que a experiência lingüística do jogo de videogame é vertical, no sentido cognitivo, realizando uma certa revolução científica dado a todo aparato acadêmico dado à criação e desenvolvimento das tecnologias digitais, assim como as pesquisas nos campos da psicologia e pedagogia, que refletem sobre os impactos mentais e educacionais respectivamente. E sendo entusiastas dos assuntos da tecnologia digital, podemos defender a complexidade que a vida individual ganha, também na construção de riqueza pessoal e acessibilidade às diversas estruturas políticas associadas à internet, programas de computador, jogos, associações virtuais, entre outras, o que faz com que parte da trajetória de vida de cada vez mais crianças seja influenciada por essa experiência. Nesse sentido a experiência dos videogames é horizontal, pois se estabelece através da vida urbano-industrial em várias culturas humanas, inclusive a brasileira.

 

Os professores ao fazerem a opção por estudar a relação entre a família e a trajetória escolar de sucesso, ou as proposições da família para que haja uma trajetória escolar de sucesso de seus filhos, ou o caminho inverso dessa dialética; a formação escolar para a vida em família, ou as determinações e construções que realizadas na escola, na vida escolar do indivíduo repercutem nas relações familiares, como os maus resultados, as notas, os deveres de casa, os custos da vida escolar, o tempo e local de estudo, etc, a opção por recortar nos dois pólos e espaços de formação humana os determinantes para a trajetória de sucesso podem fazê-lo. Mas a defesa desta carta e os argumentos encontrados nas análises e memorial da vida dos jogadores de videogames, com uma população infantil vasta são de que uma significativa parcela dos estudantes de escola pública tem experiência de jogos digitais e essa experiência é simbólica para os estudos sobre o sucesso escolar no século XXI. Simbólica no sentido de que é determinante em termos quantitativos nas escolas de Minas Gerais, e em termos psíquicos, antropológicos, da trajetória de vida estudantil e na construção do conhecimento escolar, em pontos como psicomotricidade do videogame, imaginação e fantasia, vida social, observação dos hábitos familiares, consumo, linguagem oral, racionalidade.

 

Para uma perspectiva fronteirística, que as crises na pesquisa sugerem, como a crise na pesquisa monográfica com temas relacionados à relação entre escola, família e mundo digital, é a de se estudar os argumentos que as pessoas que são jogadores de videogame têm sobre a relação entre a vida familiar e a trajetória de sucesso escolar, as hipóteses que podem levantar sobre a relação entre a experiência de jogar e a vida na escola, ou a relação entre a vida digital e o convívio com os pais, irmãos e colegas. Ainda que a visão científica não seja o objetivo desse grupo de indivíduos, e mesmo que seja, os argumentos podem ser pensados academicamente como referentes ao debate mais amplo sobre as explicações de porque certos modelos de família favorecem mais certos modelos de aprendizado, em outras palavras, explicações para resultados positivos de sucesso escolares a partir da análise das famílias dos estudantes.



Escrito por Tierro às 22h21
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Uma pesquisa sobre fenômenos complexos corre o risco de se fixar em conceitos que não representam o fluxo dos fatos, e esse risco paira sobre as pesquisas da área da educação, principalmente na delimitação do chamado “trabalho de campo” a escolha pelo trabalho que irá trazer os dados mensuráveis das dúvidas e hipóteses. O abandono da dimensão dos videogames, por exemplo, quando se estuda família-escola é comparado ao abandono de outros acontecimentos que estão emergindo na vida das pessoas, como as mídias, o consumo, a ecologia. Não há fenômenos puros na sociedade, e nem relações fixas entre conceitos, a decisão do ato de pesquisa e o empenho dos pesquisadores é que abre o campo de análises, torna possível construção de modelos e o encontro de novas referências. Atitudes como a de simplesmente fixar um foco de investigação em períodos iniciais da formação do pedagogo e fazer de uma pesquisa apenas a confirmação da realidade imaginada não irá revelar a teia de sujeitos, práticas e perspectivas, características do século XXI. Abordar a relação positiva entre o modelo familiar e o sucesso escolar como um mecanismo em que um modelo se adéqua a outro é aparentemente bela teoricamente. Mas a própria idéia de sucesso escolar está em questão, e se vencer na escola for uma atitude tão agressiva quanto vencer no videogame, os jogos podem ser uma metáfora para o desenvolvimento cognitivo. Por essa razão, os assuntos epistemológicos foram os primeiros a se preocuparem com a idéia de trajetória escolar e da objetivação no “sucesso” dessa trajetória, seja pela família seja pelos professores. E dois teóricos interessantes foram utilizados nas explicações dadas para a complexidade do conceito de “trajetória de sucesso escolar”, um conceito chave nas sociedades contemporâneas. Gaston Bachelard e Pierre Bourdieu, dois pensadores franceses do século XX que abordaram a questão do desenvolvimento humano realizado na escola sob dois aspectos diferentes e complementares. Para Bachelard a trajetória individual estudantil está marcada pelo encontro constante com elementos inibidores do fluxo do conhecimento, os obstáculos epistemológicos, que exigem a superação de um nível inicial para que o conhecimento possa continuar a ser construído quando o estudante se depara com novas dificuldades ou com objetos cognitivos complexos. Já Bourdieu descreve a trajetória de desenvolvimento escolar como um longo processo de adaptação às regras fundamentais de uma cultura num processo de conservação, considerando as provas, os exames, os testes, como fronteiras dos comportamentos mais adequados que se espera socialmente do indivíduo, de forma que uma trajetória de sucesso é caracterizada pela exibição pública da modelagem do comportamento adequado. Se a trajetória estudantil pode ser vasculhada no movimento interno do indivíduo (Bachelard) e no movimento do indivíduo nos grupos sociais a que quer pertencer (Bourdieu), a própria historicidade da necessidade de se possuir uma trajetória escolar como pré-requisito para um conjunto de atribuições políticas também pode ser questionado, repensado, e para tal uma excelente referência é o trabalho de Pierre Furter e de Ivan Illich. Em seu texto sociedade sem escolas, o filósofo austríaco discute a importância ou não da escola para as sociedades, a necessidade ou não de uma “trajetória escolar” para que um indivíduo seja considerado socialmente, ou possua conhecimentos relevantes. Um dos aspectos dessa trajetória escolar de sucesso analisada por ele, e que tem uma referência direta à vida familiar, às condições econômicas da família e também aos objetivos pessoais da própria criança é a assiduidade na escola, a freqüência escolar diária, e em certos casos cada vez mais longas, com períodos de até 12 horas dentro de uma instituição escolar, como no caso de algumas práticas de educação infantil, relatadas em seminários pedagógicos:

 

A freqüência escolar preserva as crianças do mundo cotidiano da cultura ocidental e as mergulha num ambiente bem mais primitivo, mágico e muito sério. A lei da freqüência obrigatória possibilita à sala de aula servir de ventre mágico, donde a criança é libertada periodicamente, ao final do dia ou ao findar do ano escolar, até que seja, finalmente, expelida para a vida adulta. (3)

 

Acontece que a própria formação dos professores é realizada em ambientes “escolares”, com salas de aula e com toda pressão pela construção do conhecimento, hierarquia, poder, regras, moralidade, e a admissão de que é em espaços assim que se realiza conhecimento é compulsória. Estudantes de pedagogia concebem a sala de aula como espaço da construção de trajetórias de sucesso, e eles mesmos acreditam que o sucesso de sua trajetória acadêmica é resultado do cumprimento das regras definidas para a construção desses conhecimentos. O investimento pessoal para o sucesso de uma vida se dá dentro do trabalho de sala de aula, tanto para crianças, jovens e adultos. Essa concepção faz com que a escola, o formato de formação escolar se perpetue e corresponda na verdade a uma série de expectativas, principalmente familiares, que vêem um grande bem em manter o máximo possível, no máximo possível de tempo e atentos ao máximo possível do conteúdo as crianças e jovens como um fator de garantia do sucesso pessoal, ou, no caso das classes sociais menos favorecidas pelo poder estabelecido, uma forma de ascensão socioeconômica. Continuemos a aproveitar das ácidas idéias de Illich, e ele nos diz sabiamente:

 

A escola nos ensina que a instrução produz aprendizagem. A existência de escolas produz demanda por escolarização. Uma vez que aprendemos a necessitar da escola, todas as atividades vão assumir a forma de relações de cliente com outras instituições especializadas. Aprendemos na escola que toda aprendizagem profícua é resultado da freqüência, que o valor da aprendizagem aumenta com a quantidade de dados apresentados e, finalmente, que este valor pode ser mensurado e documentado por títulos e certificados. (4)

 

 

O sujeito que obtem o sucesso na trajetória escolar é o possuidor de diplomas, um reconhecimento e veículo político para a passagem a outras instituições, profissionais, acadêmicas, etc, o título e os certificados são a mensuração do fluxo da construção do conhecimento, da vitória aos obstáculos epistemológicos, garantia da modelagem ideal e adequação moral do sujeito às práticas sociais exigidas dele, e para a família? Qual o valor de um diploma escolar para a família de um sujeito? Mas todo esse esquema da escola-família, da engrenagem entre o modelo familiar e modelo escolar, essa polaridade que explica como algumas crianças atingem a excelência escolar pela ajuda da família, ou como outras fracassam, e no fracasso atribuímos a culpa, realizamos a caça aos culpados pelo fracasso, o que nos faz lembrar que na própria formação dos professores, em cursos de pedagogia, o fracasso é punido com humilhações públicas entre os professores, indicando o que Ivan Illich chama de confusão entre moralidade, legalidade e valor pessoal na ação avaliadora do professor. Esse modelo dicotômico, de dois pólos mutuamente causais já não consegue abordar o sucesso pessoal do indivíduo no século XXI, talvez, a relação entre escola-família tenha realmente sido determinante em boa parte do século XX. Os processos denominados de globalização, aculturação, complexificação social, que aconteceram no final do século XX começam a promover uma ressignificação. Entre outras questões, a questão ecológica, da destruição iminente do meio ambiente nas sociedades industriais tem colocado em debate a idéia do sucesso pretendido pela escola ao formar indivíduos convictos da lógica do uso indiscriminado dos recursos naturais, da racionalização da espiritualidade da natureza, da abordagem científica dos fenômenos naturais, assim como da crise do hiperconsumo realizado pelas células familiares. O indivíduo de sucesso para a escola, o portador do conhecimento científico, e de sucesso para a família, o produtor-consumidor, está em crise com o próprio meio em que vive e vê seu sucesso na verdade se tornar uma inabilidade em lidar com a emergência de grandes conflitos climáticos e ambientais. A escola é capaz de determinar o que é uma trajetória de sucesso de vida? Mesmo da vida escolar? Como investigar isso na prática escolar cotidiana? Usando os modelos de investigação comuns, é claro, pois na própria formação do professor, sua trajetória é pretendida em termos de uma idéia de futuro sucesso profissional e imersão mercadológica, e não em termos das demandas contemporâneas como a sustentabilidade, digitalidade, solidariedade, etc. Ao dizer isso quero afirmar que a forma como problematizamos a idéia de trajetória de sucesso estudantil precisa se contextualizar e flexibilizar os usuais pólos do debate, ou seja a relação família-escola, referência quase obrigatória quando tratamos os conhecimentos significativos da infância. Mas eis, eis que um novo elemento entra no cenário educacional a partir de 1972 com o desenvolvimento do videogame enquanto mercadoria mundial. Se a criança é o aluno, e há, como quer Illich, uma fusão entre os dois conceitos, pois segundo ele foi a vida escolar quem definiu o conceito de “criança”, atualmente temos um trinômio cada vez mais freqüente: criança-aluno-jogador, amalgamando-se em uma identidade, que de alguma forma torna a questão da trajetória de sucesso escolar um problema mais amplo e interessante de ser investigado.



Escrito por Tierro às 22h21
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Algumas críticas e questionamentos emergem junto com esse novo mundo. Abertamente, no mundo dos jogos digitais há muitos que relativizam a importância que a escola e a família dão às práticas digitais. Argumentos bem construídos são apresentados para que nós, professores, resistentes e irritados quando mexem em nosso mundo conceitual podemos meditar e colher ensinamentos. Entre essas reflexões, uma feita pelo criador do videogame Atari (1972), engenheiro acadêmico e fundador da Atari Corporation, Nolan Bushnell. Analisando o estágio atual do uso dos videogames como ferramentas educacionais em escolas do mundo inteiro, ele nos diz;

 

Infelizmente isso não depende das empresas de videogames. Há diversos tipos de ótimos softwares educativos por si, para todos os tipos de funções. As escolas precisam se livrar da idéia de que a única maneira de ensinar é usando o professor. Há tantas coisas que a criança pode aprender em frente a um computador... não há porque se ensinar matemática ou história dessa forma. As crianças responderiam bem a isso. A tecnologia usada em games pode ter um papel muito mais atuante do que apenas no sentido de divertir. (5)

 

 

A complexificação da tecnologia, e do próprio ambiente da formação dos profissionais dos jogos digitais, formados em universidades em cursos específicos, inclusive, assim como a sedimentação de gerações de jogadores, e de títulos, numa verdadeira cultura dos jogos digitais fez com que a finalidade de entreter seja uma das várias finalidades de se jogar um jogo em um videogame ou no computador. Como um movimento progressivo do final do século XX, os videogames passam a ser também eletrodomésticos usuais em muitos lares, pela prática dos pais, que já tiveram na infância a vida de jogatinas, e que ainda continuam a jogar, e também as novas gerações de crianças. Também podemos citar o fenômeno das lan houses, que se tornam casas de jogos, ocupando o lugar cultural dos antigos fliperamas, que ainda existem, mas em menor quantidade como os que podiam ser vistos na década de 80 do século XX. Essa inserção nos lares não é simples e harmônica. Assim como a escola, as famílias possuem um discurso negativo da prática dos jogos digitais, acusados de serem incentivadores de práticas violentas entre as crianças. O desafio acadêmico ao abordar realidades complexas é não ser indiferente ao movimento inacabado que envolve o pesquisador, uma vez que os fatos da inserção das novas tecnologias digitais, e dos jogos de videogames na vida de milhões de crianças no Brasil é um fenômeno recente, e do ponto de vista antropológico bem inacabado para asserções universais. Entretanto, a vida escolar das crianças também é recente relativamente à experiência da espécie humana como um todo, assim como o modelo de família urbana-capitalista, além de tudo isso, os objetivos da escola também vão se alterando, fazendo com que a idéia de trajetória de sucesso na escola seja um conceito líquido. Mas um panorama pode ser tratado, um domínio de validade onde uma relação entre esses vários fenômenos sócio-culturais possam ser estudados em conjuntos para dar uma visão mais ampla ao pedagogo e professor em formação, de modo que seu trabalho seja aperfeiçoado para lidar com as grandes questões contemporâneas.

 

As pessoas que desenvolvem jogos digitais, que promovem a constante evolução dos videogames atualizam suas reflexões sobre os benefícios de se jogar. A posição entusiástica já descrita acima aborda aspectos sociais e cognitivos, e a minha intenção desde momento em diante é colher os argumentos em favor da inclusão da vida de jogador como elemento importante na abordagem da idéia de trajetória escolar até que se possa entrever, a partir dessa abordagem os fundamentos éticos da pesquisa, de uma metodologia de pesquisa que se pretenda encontrar as razões de uma trajetória de vida considerada de sucesso a partir da imbricação da vida familiar e da vida escolar, essa projeção fantasmática que paira sobre a criança como um nobre objetivo, e traz nobreza à condição de se ser estudante de escola pública, pertencente às classes populares brasileiras.

 

Por um lado, vemos professores esbaforidos e cansados, pois os alunos muitas vezes esgotam suas forças e paciência, na tentativa de compreender conteúdos e manter a sua atenção no que está sendo visto na sala de aula. O que se observa, justamente nestes que são considerados problemáticos pelos seus professores, é que eles se transformam em exímios jogadores, utilizando todas as possíveis teclas de atalho, mouse e quaisquer outros artifícios para conseguir superar um obstáculo, um desafio, que o jogo lhes apresenta. Um jogo é um componente importante no desenvolvimento humano. Sendo assim, é interessante que, além de divertir, ensine. Jogando, as pessoas se sentem motivadas a aprender, a fantasiar, a conhecer o inexplorado, a incorporar personagens e, principalmente, a testar a si mesmas. (6)

 



Escrito por Tierro às 22h21
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Num país como o Brasil, em que a sociedade está dividida em diversos segmentos econômicos inseridos no modo de produzir em níveis de expropriação do trabalho e em divergentes condições de sobrevivência, o sistema educacional também é dividido em dois, um público e outro particular. Quando falamos de realidade familiar e realidade escolar, estamos falando de uma infinidade de situações que esses conceitos abrigam. Entretanto a realidade virtual parece conter maior unidade, uma vez que é a identidade do jogador que está sendo construída. Mesmo assim, é uma unidade identitária difícil de sustentar, pois são muitos tipos de jogos, são muitos tipos de videogames, são muitas diferenças de apropriação do que se está jogando no universo simbólico individual, nesse sentido, cada instituição irá propor uma trajetória considerada como sendo o sucesso do fluxo das interações dentro do cotidiano desta instituição. O que é sucesso na escola pode não ser sucesso na família, o que é sucesso no mundo dos games, pode não ser sucesso na escola. Se é dado ao pesquisador a decisão de escolher um foco, uma vez que a realidade já recortada é complexa, e em minha opinião, o recorte apenas nos dois pólos família-escola é insuficiente em tempos de grande diversidade cultural, posso centrar no indivíduo minha análise, pois o sujeito é o integrador dos vários mundos que freqüenta, é na cognição do indivíduo que se deve buscar o sentido do sucesso de sua trajetória. Mas de alguma maneira, na experiência do jogar encontramos uma metáfora mais imediata desse sucesso; vencer o jogo, testar a si mesmo, e como o sujeito fala sobre isso, é no sujeito que está presente nestes três mundos que se volta à metodologia de pesquisa, como ele unifica as demandas pelo “sucesso”?

 

Quando uma criança fica vidrada em um jogo, ela desenvolve um foco e permanece concentrada. Ela lida com ambientes complexos, com muitos problemas a serem solucionados. Esse é o olhar de alguém que está prestando atenção. Um game pode ser muito frustrante e prender a atenção em um determinado problema. Como resultado, muita articulação é empregada no processo de solução. Isso pode ser uma grande novidade para os pais e autoridades que desconhecem os jogos e simplesmente se recusam a aceitá-los. Esses indivíduos não têm idéia do tempo gasto com desafios e barreiras dentro dos games. Independente do que se diz, os jogos ensinam as crianças a serem mais pacientes, além de ensinarem que a perseverança e a disciplina podem conduzir à solução de problemas. (7)

 

 

 

Antes das determinações artificiais e sociais, históricas dos objetivos a serem alcançados para que um sujeito atinja o que consideramos como sucesso escolar, sucesso da trajetória de vida, o argumento antropológico. E para a antropologia, principalmente a antropologia filosófica, a solução dos problemas humanos é o grande objetivo de uma trajetória de vida, que possa ser considerada, não apenas por um grupo muito bem localizado historicamente, mas sim pela espécie humana como um todo. O sucesso ou fracasso da vida humana se refere ao aprendizado da ética, comportamentos fundamentais do ethos, que realizam a possibilidade da vida social, da preservação da saúde e felicidade do indivíduo. Se a experiência escolar promove o ethos, se a experiência familiar promove o ethos e a vida de jogador também promove, auxilia o ser humano, o indivíduo, mesmo na infância, a resolver seus problemas de convivência e adequação social baseando-se em princípios de respeito aos demais, então antropologicamente temos uma trajetória de sucesso. Esse elemento antropológico coloca a discussão em um nível mais profundo. Na verdade as várias realidades em que o tempo da criança é seccionado; o tempo da escola, o tempo da família, o tempo de jogar, são locais onde dimensões do ethos podem ser construídas, para que ao final, e mesmo durante esse processo de construção, a capacidade ética do sujeito é aprefeiçoada. E para se estudar o jogador, é necessário jogar, é necessário ver os graus de complexidade dos obstáculos epistemológicos, ver a ideologia massificante do videogame e como ela age na massificação e estimulação constante do jogador. Estudar o aluno-jogador-criança é uma forma de ter um quadro mais complexo das redes de interferências mútuas no desenvolvimento humano que chamamos de trajetória, e colocar essa trajetória não apenas referente às expectativas dessas três situações de vida, mas também diante das considerações mais profundas do ser humano, o ethos. O sucesso da trajetória de vida humana, sua forma histórica definitiva, fator da própria manutenção dos níveis de evolução da espécie, acontece na observação sistemática do ethos humano, ou seja, dos comportamentos de sociabilidade, a esses critérios comportamentais é que se submente os padrões de “sucesso” históricos e compartimentados, e se, entrelaçados promoverem o equilíbrio, tanto melhor, particularmente na formação dos professores, em cursos de pedagogia, por exemplo. (8), (9).



Escrito por Tierro às 22h20
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      2.  Introdução e problematização

 

Prosseguindo com as argumentações em favor da perspectiva culturalista para a abordagem dos fenômenos sociais da escola, e dos relacionamentos familiares, e das trajetórias de sucessoO jogo Call of Duty 3, the world of war (Playstation 2) leva o jogador a assumir uma personagem o soldado Miller, que, munido de uma bússula, deve entrar na mata e matar japoneses e alemães durabte a segunda guerra mundial. O jogador é a consciência transcendental kantiana, ele é o olhar da personagem, seu cérebro, sua consciência. A perspectiva de uma pessoa que está olhando por óculos. Nossa visão é a visão da personagem, e dessa maneira a realidade virtual se torna um espaço de existência mental. A situação das escolas, do ato de ensinar, do que se deve aprender, do processo de evolução pessoal que é proposto para as massas, um enorme contingente de estudantes matriculados, compondo um grupo de milhões de crianças e adolescentes no estado de Minas Gerais, essa população freqüenta escolas onde conteúdos universais da cultura humana são apresentados e ensinados, entre outros valores parte dos princípios da vida em família e da ideologia do estado capitalista-industrial. O jogo de videogame é um elemento dessa industria de uma maneira crescente, e a primeira reflexão sociológica será a de se medir e mensurar essa população de jogadores, e se ela é um fator significativo para a defesa do argumento de que as relação escolares, o sucesso da trajetória escolar sofre uma interferência por causa da vida de jogador, hipótese de avaliada sob o ponto de vista de uma antropologia, pode revelar uma concordância com a pedagogia do joguinho, que, como Call of duty 3, um dos preferidos pelos jogadores de Playstation 2, ou mesmo analisar a evolução social de um fenômeno que deve afetar a vida familiar de uma maneira determinante; os jogos digitais na infância.

 

Trajetória, sucesso pessoal, família e vídeo games

(trecho publicado no blog www.transcinema.zip.net)

 A vontade é jogar o dia inteiro, as plataformas, Playstation, Xbox, Nintendo, fliperamas, PCs são cada vez mais interessantes, mais atrativas, mais provocadoras. O mercado dos jogos digitais movimenta bilhões de dólares e mobiliza milhões de jogadores pelo mundo. Desde a década de 80 do século XX, os jogos eletrônicos gradualmente se tornam componentes constantes no processo de formação dos indivíduos, parte importante de suas trajetórias, por uma série de motivos, principalmente pela quantidade de estímulos e habilidades cognitivas desenvolvidas. Mas e a vida real? E as demandas reais cotidianas? A socialização das crianças se inicia na célula familiar, espaço de alimentação, afetividade, segurança e educação. Nas sociedades capitalistas, paralelo à educação desenvolvida na família há a obrigatoriedade da escola. Obrigatória e cada vez mais influenciante, a vida escolar passa a ser um imperativo categórico na vida de 95% das crianças de Minas Gerais, que em média tem 4 horas de permanência na vida escolar e tantas outras horas diárias em atividades escolares. Já não é possível pensar a vida de uma criança atualmente sem a escola, e essa necessidade e obrigação mobiliza as famílias, que projetam expectativas e projetos de vida para seus filhos, na crença de que para encontrar trabalho e melhores condições de vida, a escola é fundamental.

Sim, e é mesmo, no modo de produção capitalista, o sujeito precisa se especializar em sua força de trabalho para poder vendê-la por um salário, para o estado, ou para empresários e comerciantes, já não se pode escolher livremente uma trajetória independente desse espectro de vida capitalista. E as famílias então se relacionam com a escola de forma a representar aquilo que Paulo Freire chamou de “educação bancária”, ou seja, a criança é entregue à instituição escolar pela família com a esperança de que conhecimentos sejam depositados nela. Essa imagem fica nítida quando analisamos a educação infantil, onde crianças passam até 12 horas em instituições escolares para que os pais possam ter tempo livre para o trabalho capitalista e para o consumo. Voltemos ao jogo, entretanto, ao jogo digital, as horas que se passa diante de um computador ou de uma televisão ou de um fliperama, em busca de divertimento, de alegria, de praticar esporte (sim, pois jogos digitais já figuram como modalidades esportivas, tendo campeonatos e grandes premiações). Em muitos momentos o jogo se apresenta como uma realidade alternativa para a criança, alternativa à vida familiar, cheia de pressões afetivas, sociais e econômicas, e a escola, também cheia de pressões, cognitivas, políticas, educacionais. Essas três realidades, a virtual, a familiar e a escolar, formam um tripé presente na vida de milhões de crianças e que são fatores de evolução de sua trajetória pessoal. Em geral o sucesso dessa trajetória pode ser considerado a partir dessas três perspectivas.

Utilizados para ensinar pilotos de avião, os simuladores de vôo são parte obrigatória na formação de aeronautas. No exército norte americano, parte da tropa joga “Us army” para aprender as táticas e estratégias de combate. Em vários setores empresariais, jogos como “The sims” são utilizados para demonstrar como os negócios atingem a vida pessoa dos indivíduos. Uma série de exemplos podemos dar sobre a relação entre os jogos digitais e a vida profissional.

Ao contrário do que muitas vezes se pensa, a criança não é um ser passivo frente às seduções da mídia. "Ao assistir TV ou navegar na Internet, por exemplo, a criança tem uma postura ativa. Ela 'ressiginifica' os conteúdos a partir de seu momento, de seus interesses e vivências", diz o educador Claudemir Edson Viana, pesquisador do Laboratório de Pesquisa sobre Criança, Imaginário e Televisão (Lapic), da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Para ele, é um equívoco considerar a criança como uma "folha em branco" que apenas recebe informações e estímulos. Viana é autor de uma tese de doutorado que analisou as relações entre aprendizagem infantil e jogos digitais. Segundo ele, é necessário que a escola quebre preconceitos e introduza a abordagem desses jogos em sala de aula. "Não se trata de substituir a escola ou o educador. O que se propõe é que o adulto se dedique mais à compreensão do universo infantil", sugere. O pesquisador entrevistou 30 crianças com idade entre 8 e 10 anos, estudantes de uma escola de classe média paulistana. Num primeiro momento, Viana identificou os jogos digitais on-line (disponíveis na Internet) preferidos dos estudantes. Em seguida, dedicou-se a "conhecer os jogos" e, numa segunda entrevista, fez questionamentos mais elaborados. A pesquisa verificou que a escolha dos jogos costuma reproduzir o que ocorre em outras brincadeiras. "A essência do jogo continua a mesma, com a presença de competição, esportes e histórias. Também há uma diferença entre os gêneros. Meninos preferem jogos de luta e estratégia, enquanto as meninas optam por sites de bonecas, pintar e colorir", conta Viana. (1)



Escrito por Tierro às 22h18
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A realidade escolar não é o melhor lugar do mundo. Quem gosta de escola? Quem aprecia a vida escolar? Se a escola não fosse obrigatória, 9 milhões de crianças e adolescentes mineiros entrariam nos mais de quatro mil prédios escolares, públicos e particulares, todos os dias? Freqüentaríamos a escola se a demanda capitalista por mão de obra escolarizada não fosse arbitrária e decidida em leis? Se as famílias não fossem ameaçadas legalmente elas enviariam seus filhos para a escola? Escolarizar cada vez mais cedo as crianças é uma forma de adequá-las à vida escolar e minimizar as crises existenciais vividas pelos anos e anos em séries e intermináveis conteúdos curriculares? Qual é o prazer de se ter uma vida escolar?

A perspectiva de se entrar, ao menos nos mercados periféricos, coloca uma áurea na escolarização, uma áurea de necessidade, de dever, de moral. E quanto mais se evolui dentro da escola, o que não significa aquisição de valores mais complexos, mas simplesmente a trajetória de um “sucesso” na passagem de uma série a outra, quanto mais progredimos, mais vemos o afunilamento e a política perversa da própria sociedade capitalista. Imaginemos a trajetória de uma criança de escola pública e uma outra criança de escola particular. Se o objetivo da trajetória escolar de ambas for atingir, no final do ensino médio, uma habilidade cognitiva que permita passar num vestibular de medicina, por exemplo, vamos perceber as contradições do enorme sistema de escolarização montados no Brasil desde 1832, data da promulgação da lei da escola pública no Brasil. As chances de uma criança de escola pública de estar preparada para um vestibular perverso ao curso de medicina são menores em média do que as chances de uma criança de trajetória em escolas particulares no mesmo perverso vestibular. O que acontece? Não é uma crítica vazia. Analisando a trajetória escolar dos alunos matriculados no primeiro período de medicina na UFMG, por exemplo, podemos ver claramente que a escola particular, a rede particular é a detentora da maioria absoluta dos “sucessos” na entrada acadêmica. E esse panorama vai nos indicar que existe um “mapa” dos cursos destinados a alunos de escola pública e dos cursos destinados a alunos de escolas particulares. A trajetória de sucesso escolar está definida no ato de entrada em uma escola pública? Um fato interessante que não pode ser comprovado cientificamente, mas que é ainda assim relevante, é o comentário de muitos professores de escolas públicas que, se tivessem condições, ou, tendo condições, colocam seus filhos em escolas particulares, definidas como um lugar onde a criança tem “mais chances de sucesso’ isso nos leva a perceber que o sentido de “Educação Pública e gratuita” não é um índice de garantia de qualidade na trajetória, pelo menos se o objetivo for ocupar uma vaga nos cursos estratégicos ao próprio sistema capitalista, como medicina, direito, administração, fisioterapia, comunicação, etc. então, uma boa trajetória escolar é uma trajetória em uma instituição onde se paga pela educação?

Mensalidades altíssimas são necessárias para garantir que um estudante possa ter um fluxo estrategicamente mais avantajado do que outros? Não necessariamente. As regras dos grupos político-econômicos que ingressam na escola pública e os que ingressam em escolas particulares são diferentes. São grupos sócio culturais diferentes, com valores diferentes, inseridos em dinâmicas culturais diferentes, o que faz, por exemplo, com que colégios como Santo Agostinho, Maximus, São Francisco, Loyola, tenham um público negro baixíssimo, dada a condição desfavorável da etnia negra ao longo da história do Brasil. Quando a escola pública foi fundada neste país, o homem e a mulher negros eram considerados animais de trabalho escravo. Desde então uma crise cultural acompanha a vida política brasileira, que a escola não diminui, pois os dois sistemas de ensinos que convivem paralelos indicam essa continuidade da crise.

Os resultados do Censo Escolar 2005 apontaram um índice de 33% de negros em escolas privadas do Brasil. A porcentagem fica abaixo dos 48% da população brasileira jovem (entre 5 e 24 anos) que se considera negro ou pardo. Nas escolas públicas, segundo o IBGE, o índice de alunos negros ou pardos chega a 56,4% dos alunos. As informações são do jornal Folha de S.Paulo. A pesquisa, que pela primeira vez levantou dados étnicos, gerou polêmica por deixar esta opção optativa e em caráter de autodeclaração. Cerca de 20% dos entrevistados não se pronunciaram. Os dados afirmam também que o percentual não varia muito entre os ensinos fundamental e médio. Nas escolas particulares, 34% dos alunos do fundamental que declararam a etnia disseram ser pretos e pardos - cai para 30% no médio. Já na rede pública, o índice é de 60% e 57%, respectivamente. Segundo especialistas, os números da rede pública refletem a universalização do ensino fundamental a partir da década de 70, gerando uma demanda pelo nível médio. No caso da rede particular, o percentual baixo reflete diferenças sociais e discriminação. Outro ponto que chama a atenção é o "embranquecimento" na educação. Os negros entram na escola, mas não conseguem avançar nos estudos. "A questão é a diferença de aproveitamento ao longo da vida escolar", aponta o professor Marcelo Paixão, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele lembra que, enquanto 53% das crianças brancas de dez anos estavam na série ideal para a idade, só 35% das crianças negras se encaixavam no perfil. A professora Regina Vinhaes, da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB) diz que o ensino deve ter um caráter mais cidadão. (2)

A vida em família no século XXI, como é? Célula estrutural da experiência humana, a família como estética, como forma estética, tem se transformado significativamente, de forma que vários tipos de associações humanas, afetivo-sexual-econômicas, são consideradas famílias e passíveis de educar uma criança até seu próprio desenvolvimento e capacidade reprodutiva. O conceito de Lévi-Strauss nos é significativo quando definimos família:

a família nasce a partir do momento em que haja casamento, passando portanto a haver cônjuges e filhos nascidos da união destes. Os seus membros, que se mantêm unidos por laços legais, econômicos e religiosos, respeitam uma rede de proibições e privilégios sexuais e encontram-se vinculados por sentimentos psicológicos como o amor, o afecto e o respeito. (3)

Mais do que isso, para uma perspectiva estruturalista da família, a célula familiar é responsável materialmente pela trajetória da criança, de seu nascimento até a sua fase reprodutiva, que ocorre biologicamente pelos 14 anos. Com o prolongamento da infância e adolescência, para fins capitalistas de consumo, adolescência que pode ser vivida tranquilamente por indivíduos até os 30 anos de idade, a família tem uma responsabilidade original de capacitar o indivíduo para que ele atinja sua maturidade sexual e política e possa, ele mesmo, gerar uma nova família. Essa perspectiva também está em mutação, pois o estado assume cada vez mais a responsabilidade de cuidar da criança, para liberar os pais ao trabalho, contando com a instituição escolar como representante. A educação infantil ganha enfoque na presente sociedade. Outro fator importante na trajetória do sujeito em nossas sociedades, que representa um elo entre a família e a escola são os ciclos de consumo, organizados através de festas cívicas escolares e que tem por finalidade preparar o sujeito para o consumo, para a compra de mercadorias, associando seu trabalho, ou o salário obtido com o aluguel de sua força de trabalho na compra cíclica. Dia das mães, dia dos pais, dia das crianças, natal, páscoa, dia dos namorados, essas datas se tornam tão mais importantes do que o dia da bandeira, dia do índio, dia do golpe militar, dia da independência. Na trajetória do sujeito, a família, as redes sociais afetivas, são enfatizadas como oportunidades para consumo e grandes lucros emrpesariais, movendo toda a máquina econômica publicitária e gerando bilhões de dólares anuais em recursos. É claro que a cada ciclo de produção, compras e consumo, o empobrecimento do meio ambiente ocorre, pois exatamente nessas oportunidades bilhões de toneladas de dejetos industriais e lixo doméstico são espalhados pela superfície do planeta, gerando um dano irreparável ao meio ambiente. Em minas gerais 500 espécies de animais estão em extinção, e milhares de espécies de plantas também, pois a máquina produtiva do estado brasileiro avança sobre os biomas para obter riquezas a serem transformadas em mercadorias. É claro que a escola não problematiza esse problema, pois serve ao sistema capitalista, sua finalidade é preparar para a vida social e profissional milhões de pessoas anualmente, prontos a entrar em postos de trabalho. O filme BARAKA (1991) mostra bem essa realidade. De certo modo a vida escolar propõe como parte da experiência pessoal o consumo irrefletido, proporcionado pela destruição gradativa do ambiente. Isso não é discutido pelos estudantes. Dessa maneira, a trajetória de sucesso escolar, na verdade é uma trajetória de fracasso ambiental, o que faz com que nossa perspectiva de “sucesso” esteja ligada a parâmetros exclusivamente políticos e estreitos demais. A acima de tudo, a grande pergunta, ou as grandes perguntas; a vida familiar é prazerosa? A vida escolar é prazerosa? Seja escola particular, seja escola pública, o sujeito a ser moldado é o sujeito da acumulação de capital e da destruição sistemática do ambiente, o sujeito competitivo, fragmentado (dominador dos conteúdos separados e incapaz de realizar a grande síntese), o sujeito cumpridor de horários e metas externas às próprias inclinações individuais, o sujeito socializado para a vida em cidades e pronto para os ciclos de consumo anuais que realmente movem o sistema capitalista.

 

 

Msc. David José Gonçalves Ramos

 

Inverno de 2011

Belo Horizonte

 

 

 

Referências

 

1.       KUHN, Thomas S. “A estrutura das revoluções científicas”. São Paulo, Editora Perspectiva, 2000, página 69.

2.       LEWIS, Michael. “A nova novidade; uma história do vale do silício”. São Paulo, Cia das Letras, 2000, página 14.

3.       ILLICH, Ivan. “Sociedade sem escolas”. Petrópolis, Editora Vozes, 1983, página 67.

4.       Idem. página 75.

5.       MIYAZAWA, Pablo. “Uma conversa com o lendário fundador da Atari”. Revista EGM, número 35, janeiro de 2005, São Paulo, Editora Conrad, 2005, página 49.

6.       BRANCHER, Jacques Duílio. “Introdução aos conceitos de jogo de computador”. IN: FERNANDES, Anita Maria da Rocha (org.). “Jogos eletrônicos: mapeando novas perspectivas”. Florianópolis, Visual Books, 2009, páginas 17-30.

7.       Steven Johnson, autor de “Tudo que é ruim faz bem: como a cultura popular está deixando as pessoas mais inteligentes”, em entrevista para a revista EGM, número 45, novembro de 2005, de São Paulo Editora Conrad, 2005, página 19.

8.       KANT, Immanuel. “Crítica da razão pura”. São Paulo, Editora Martin Claret, 2002.

9.       VAZ, Henrique Cláudio de Lima. “Antropologia filosófica”. São Paulo, Edições Loyola, 1991.

10.   - http://www.usp.br/agen/repgs/2005/pags/099.htm.Texto: Educadores ainda são resistentes ao uso de mídias em sala de aula, de Flávia Souza. 31/05/2011

11.   http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/Censo+aponta+apenas+de+negros+em+escolas+privadas.html. Texto: Censo aponta presença de 33% de negros em escolas particulares.

12.   http://conceito.de/familia



Escrito por Tierro às 22h17
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João Fofinho



Audiovisualise isso querido
Conselhos de antigas mulheres
Velhas antigas e sábias terríveis
Pessoas de um olho só
Que nunca se fecha


e que vasculham escadas

corredores

mentes


Para ti, fofinho
Ter a saúde dos homens suaves

Cuspir da boca o nome
Jurar não repetir o fracasso
Das coisas mais simples



Os combinados?

O que temos vergonha até de falar pra deus?
O que fizemos e não confessamos?
Saiba,
Há aquelas pessoas que jogam umas contra as outras
Para provar novos tipos de poder
O poder de seduzir
Tenha receio
Rápidas inteligências crueis

Aquelas pessoas que nunca conheceram amor
E que só ouviram falar das bocas sorridentes
Palavras sem alma ou energia,
Que sentem inveja dos dias calmos
Das pessoas calmas e comedidas
E que estão completamente equivocadas sobre a lua


AH!!! mas vá caminhar pela tempestade

vá lá no fundo do furacão

precise ir até o mais baixo abismo

tente rumar para a batalha,

você irá só!

quem promete o que não pode

não pode mesmo

não tem firmeza!

ah! fofinho!

sempre um dia após o outro, sempre um olhar após o outro

e nada de fatos reais, de verdadeira vida

nada de vida verdadeira


Fofinho, fique dessas algemas livres
Do corpo vazio e sem sentimentos
Corpo que se move
E se move
E se desculpa com rapidez mórbida
Que se insinua sobre o que não conhece
Dançando sobre a vaidade
Feito um cego pisando as brasas
Sem saber pra onde ir
Ou mesmo do que está fugindo

Ai, fofinho, sei que são palavras completas
Sem sinônimos
Que desdentadas velhas insistem em ensinar
Que o coração de uma mulher é difícil de atingir
Mas há mulheres que não sabem onde plantaram suas mentiras
Aquelas pessoas que jogam umas contra as outras
Que usam tantas máscaras, que se repetem tristes
Sem saber pra onde ir
Ou qual a nova idiotice se tornará lenda
São mulheres que estão completamente equivocadas
Jogam pessoas umas contra as outras
Para testar sua força fraca
E sorrir dos embaraços
Dos desviar de olhos
equivocadas
Com relação à lua
Com relação à fidelidade
Reproduzindo grandes equívocos
Para que o coração de outras pessoas
Seja sempre solitário e solitário
Equivocadas com relação à honra


Fofinho,
Desça dessa árvore
Que o tempo irá cortar



Escrito por Tierro às 23h11
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As brincadeiras eróticas na infância escolar



Se tivesse feito a escolha pelo sentido
Oculto dessas palavras
Não
São todos canalhas para ganhar mais dinheiro
Os pequenos grandes donos do mundo
Desde cedo são treinados para o rancor
E para a inveja

Se você não ganha nada
Se tinha que estar numa final, e nunca acontece
Se tinha que estar em revistas e televisão
E isso não é tua realidade
Desde cedo você foi escolhido para ser o fraco

Quantas promessas nunca cumpridas
Tantas negociações vazias
Você está muito certa de que dirá não
Sempre diz não, para aquele escolhido
Por tua covardia

 

 



Escrito por Tierro às 13h08
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RAQUEL

 

mágicas no ar
todo meu pensar
todas as palavras no espelho
no espelho
no espelho

mágicas no ar
todo meu pesar
e tantas palavras
sobre teus cabelos
no espelho
no teu espelho
no espelho

mágicas no ar
todo meu pensar
todas as palavras no espelho
no espelho
no espelho



Escrito por Tierro às 13h50
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E,...,  quanta sujeira fizemos?



Hoje estou com vontade de chupar tua boceta

Vontade de apertar teus mamilos

Morder de verdade teus ombros

Beijar muito essa boca sua

Enfiar a lingua nos teus dentes

Apertar tua cabeça contra meu rosto

E ficar passeando sem pressa com a língua sobre teu rosto

Enfiar meus dedos no teu cu

Aquela abelha, aquele mel, aquela lambuzada que Wood Allen advertia nos sexos sujos

Apertar tua bunda com força de raiva, e bater nela com agresividade

Até você estranhar temerosa

E quanta sujeira já fizemos,não é?

...


Escuta um rock ai, então

 



Escrito por Tierro às 21h12
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